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A Força das Cinco Gerações

No Espírito Santo, essa continuidade ancestral ganha corpo e voz na trajetória de Mestre Jesley Alves, também conhecido sacerdotalmente como N’ganga Makia Zangui.

Ancestralidade e Resistência na Makumba

Como a linhagem de N’ganga Makia Zangui atravessou o tempo para resgatar os fundamentos da Umbanda tradicional.

A história das religiões de matriz afro-indígena no Brasil é, essencialmente, uma história de “resistência velada”. Longe dos registros oficiais e dos livros didáticos, os verdadeiros fundamentos de cura, culto e conexão espiritual foram preservados no calor da oralidade e no recesso dos lares. No Espírito Santo, essa continuidade ancestral ganha corpo e voz na trajetória de Mestre Jesley Alves, também conhecido sacerdotalmente como N’ganga Makia Zangui. Sacerdote de quinta geração, pesquisador e escritor, sua vida é a manifestação direta de uma herança familiar que sobreviveu ao exílio, à escravidão e às tentativas de apagamento cultural. Compreender seu trabalho é mergulhar em um rio profundo que une o Reino do Kongo às terras capixabas.

A Raiz no Reino do Kongo e o Encontro Afro-Indígena

A base dessa linhagem espiritual começa com seu tataravô, N’ganga Makia Zangui, um sacerdote conhecedor das tradições Bakongo, também referido como Tatá Praleto de N’ganga a N’sanko. Capturado e exilado à força de sua terra natal, ele aportou no Espírito Santo sob o nome cristão imposto de Ricardo Alves. Após escapar do cativeiro colonial, Ricardo encontrou refúgio e convivência entre os indígenas Aimoré na região de Colatina.

Foi nesse cenário de sobrevivência que ele se uniu a Luzia Tupinikim, uma mulher indígena cuja memória familiar celebra como curandeira, conhecedora profunda das ervas e dos espíritos da floresta. A fusão entre a tecnologia ritual Bakongo de Makia Zangui e a sabedoria botânica e espiritual de Luzia estabeleceu o alicerce da família. Esse conhecimento híbrido, afro-indígena, não foi guardado em bibliotecas; ele pulsou através das gerações por meio de benzedeiras, como a tia Maria de Colatina, e de práticas reservadas de Umbanda brasileira e Kimbanda Bakongo, cultos familiares, muitas vezes camufladas sob o manto do catolicismo popular para garantir a vida de seus detentores.

Formação na Infância e a Instrução dos mais velhos

A preparação de Jesley Alves para o sacerdócio manifestou-se precocemente. Aos cinco anos, ele já frequentava o terreiro de Pai Chiquinho, em Colatina, Bairro Bela Vista, onde experimentou os primeiros contatos conscientes com o mundo invisível, acompanhado por presenças como Compadre Caveira e Caboclo Sete Flechas. Embora essas manifestações tenham gerado preocupações familiares na época, a espiritualidade permaneceu latente, eclodindo com vigor aos dezoito anos através das orientações de Compadre Veludo e Comadre Rosa Negra, entidades que se tornaram pilares de sua estrutura ancestral, além do famoso Pai Benedito das Almas.

Nesse processo de formação, a figura de sua mãe, Carme Helena, foi o elo crucial para a consolidação de sua sensibilidade e respeito à memória. Reconhecida por Jesley como uma mulher de inteligência e capacidade extraordinárias, Carme foi a guardiã das narrativas que moldaram o caráter desse mestre. Embora ela não tenha tido a oportunidade de registrar seus saberes em livros, sua influência é homenageada em cada obra publicada pelo filho, que assumiu a missão de transcrever a riqueza que residia na oralidade materna.

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Terreiro São Jorge Guerreiro e a Umbanda “Pé no Chão

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N’ganga a M’banda

No exercício do seu papel sacerdotal, Mestre Jesley assumiu a direção do Terreiro São Jorge Guerreiro, localizado em Jacaraípe, na região litorânea do Espírito Santo, herança de sua mãe. A comunidade pratica o que o sacerdote define como Umbanda “pé no chão”, uma vertente firmemente comprometida com a preservação dos fundamentos africanos e indígenas. O foco central do culto está voltado para a reverência aos ancestrais, a manipulação ritual dos elementos da natureza, o uso das tecnologias ancestrais, encantamentos e a formação rigorosa dos filhos de pemba.

Dentro dessa perspectiva, Jesley realiza uma separação conceitual clara em suas pregações e escritos, desfazendo sinônimos equivocados que enfraquecem as identidades dos cultos. Em sua tradição, M’banda é a força e a tecnologia de cura de matriz Bakongo; Makumba é o sistema ritual e ancestral complexo gerado na diáspora brasileira; e a Umbanda é a manifestação histórica posterior. O sacerdote combate abertamente a submissão dessas práticas ao espiritismo kardecista e rejeita as teorias de evolução espiritual que classificam entidades em escalas de superioridade, argumentando que tais hierarquias apenas reproduzem o racismo e o elitismo colonial dentro do espaço sagrado.

O Instituto e a literatura como atos de resgate

A produção intelectual de Mestre Jesley Alves expandiu-se a partir da necessidade de suprir a falta de registros confiáveis sobre os cultos tradicionais. O que começou com o projeto Umbanda Natural — Apostilas de Fundamento evoluiu para o Instituto Jesley Alves. A plataforma abriga um acervo impressionante que ultrapassa as 350 apostilas e cursos ministrados por ele.

Após muitas superações com editoras complicadas, celebramos em 2026 e abertura da Editora Saravá, que publica as obras do mestre e de outros autores  futuros, centrados nos saberes ancestrais, tais como Quimbanda Antiga, As Sete Radiações de Umbanda, O Livro das Santas e A Linha de Tupã — Os Caboclos de Penas e muitos outros, confira a aba de livraria.

Os livros e cursos oferecidos — que versam desde a Kimbanda Bakongo até o estudo do tabaco e do oráculo da cebola do Kongo (Kuzambula O’lobasa) — são ferramentas explícitas de descolonização. Jesley defende que a escrita não substitui a vivência do terreiro nem a autoridade dos mais velhos, mas atua como um escudo contra o esquecimento. Ao resgatar a língua Kikongo e aplicá-la aos ritos, cumpre-se o comando espiritual que seu próprio tataravô, N’ganga Makia Zangui, lhe transmitiu em experiência sobrenaturais: retirar o clã e seus saberes da escuridão do apagamento histórico. Guiado pela máxima de “aprender com quem sabe mais para ensinar a quem sabe menos”, o Instituto consolida o saber afro-indígena como uma responsabilidade essencialmente comunitária.

A família do terreiro - Umbanda

Acesse a coletânea de livros e cursos do Mestre Jesley Alves

Fontes e referências: Autobiografia Jesley Alves

1991 a atualidado

Respostas de 10

  1. Que legado incrível! Que N’Zambi continue te abençoando e dando força para que mais e mais pessoas tenham acesso a cada parte desse conteúdo que nos ensina a honrar, cuidar e nos aproximar cada mais de nossos ancestrais. Para que possamos através do conhecimentos nos tornarmos pessoas melhores e lembrarmos que nós somos os ancestrais do futuro. Seu conhecimento de vida, magia e conselhos mudam vidas.

  2. Texto inspirador e muito enriquecedor. É gratificante conhecer a importância da ancestralidade, da preservação da memória e do respeito às tradições. Parabéns pelo trabalho e por compartilhar esses conhecimentos com tanta dedicação. Que essa missão continue alcançando cada vez mais pessoas. Saravá!

  3. Que honra fazer parte dessa família! Quem te acompanha de pertinho sabe o quão grandiosos você e nossa tradição são, mestre.
    Vai ser uma maravilha continuar consumindo seus textos por aqui. ♥️

  4. Excelente conteúdo! Traz uma reflexão profunda. A leitura é envolvente, esclarecedora e nos faz valorizar ainda mais nossas raízes. Parabéns pelo excelente trabalho pai e por compartilhar um conhecimento tão rico conosco! 👏📖

  5. Sempre bom conhecer um pouco mais das potencialidades que temos aqui na região. Muita coisa de qualidade vem sendo praticada, que espaços como esse do texto sejam cada vez mais vistos e reconhecidos em seu imenso valor!

  6. Que história incrível e marcante sua jornada até aqui. Que Zambi lhe dê muita saúde para cumprir sua missão que é linda em transmitir todos os saberes ancestrais e reascender a umbanda pé no chão. Parabéns com a evolução do seu trabalho que é excelente!

  7. Parabéns Mestre jesley ! Você realmente passa para nós conhecimentos muito ricos, nos preparada para uma vida espiritual com mais conexões com nosso ancestrais, sou grata por tudo. Que Z’ambi lhe abençoe.

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