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“VENDE-SE UM DIABO!” – Por que Exu foi demonizado?

O medo vende mais que o ancestral. Reconhecer Exu em sua dignidade real — um ancestral, um guardião, uma consciência vital — modifica por completo essa engrenagem mercantil.

A escolha econômica por trás da demonização das forças tradicionais de terreiro

O mercado da fé e o verdadeiro papel do sacerdote

A religião existe no mundo porque responde a uma necessidade humana extremamente profunda. Ao longo da história, a maior parte das pessoas não cruza as portas de um templo ou de um terreiro buscando, em primeiro lugar, conhecimento teórico ou erudição filosófica; o ser humano busca alívio. Busca segurança diante do desconhecido, sentido para as suas dores, perdão para as suas falhas e esperança para caminhar. Esse não é, de forma alguma, um fenômeno moderno ou uma fragilidade da sociedade contemporânea.

No antigo Egito, o fiel cruzava o deserto para procurar o sacerdote, oferecia seu sacrifício ritual e saía dali convencido de que sua culpa espiritual havia sido inteiramente removida. Entre os hebreus, o sacrifício do cordeiro pascal simbolizava rigorosamente a expiação dos pecados e a purificação da comunidade.

Em diferentes eras e tradições planetárias, os rituais cumprem essa exata função psicossocial e litúrgica: aliviar o peso da consciência humana e restaurar o equilíbrio na relação entre a pessoa e o sagrado. O problema real, portanto, não reside na existência da religião em si, mas começa quando ela abandona a busca pela verdade e passa a servir exclusivamente para confortar ilusões ou explorar a boa-fé das pessoas.

O sacerdócio além do lucro e da conveniência do ego

A vida sacerdotal jamais deveria ser construída ou moldada sobre a dinâmica do dinheiro. Essa afirmação não significa que um sacerdote não possa ou não deva ser financeiramente sustentado pelo seu ofício religioso. Ele pode e deve receber uma justa contrapartida pelo seu trabalho, principalmente quando este exige tempo integral, dedicação exclusiva e uma imensa carga de responsabilidade comunitária. O erro ético e o desvio doutrinário começam quando o lucro financeiro e a manutenção da clientela passam a determinar o teor do discurso espiritual.

O verdadeiro sacerdote é aquele que coloca a verdade acima da conveniência e do ganho pessoal. Se a verdade afasta as pessoas e diminui a arrecadação da casa, ainda assim ela deve ser proclamada com firmeza.

Na filosofia tradicional de Ifá, existe um ensinamento que corta como navalha: a casa do mentiroso está sempre cheia.

A mentira é altamente atraente porque promete soluções mágicas, resultados imediatos, prosperidade sem esforço e confirma exatamente as fantasias que o orgulho humano deseja acreditar. A verdade, em contrapartida, quase sempre exige mudança de postura, disciplina diária, responsabilidade com os atos e transformação interna.

A indústria do medo e a demonização de Exu

Ser sacerdote é, reconhecidamente, uma das tarefas mais complexas e difíceis que existem. Exige um compromisso inegociável com a realidade espiritual, mesmo quando essa postura produz rejeição e isolamento social. Exige peitar abertamente interesses econômicos, barreiras culturais e preconceitos religiosos arraigados. Quando um líder abandona essa espinha dorsal apenas para preservar sua clientela de consulentes, ele pode perfeitamente continuar vestindo roupas rituais caras, ostentando títulos pomposos e executando coreografias litúrgicas, mas ele já deixou de exercer o sacerdócio em sua essência viva. É muito fácil validar narrativas distorcidas quando a manutenção dessa ignorância continua gerando dividendos e lucros comerciais. Difícil é contrariar as regras do mercado místico quando a verdade histórica ameaça o modelo financeiro que foi construído ao longo dos anos.

A figura de Exu é o exemplo mais gritante e doloroso desse conflito de interesses dentro do cenário brasileiro. Enquanto for comercialmente vantajoso e lucrativo apresentar Exu como uma entidade demoníaca, obscura, associada ao terror, ao feitiço de destruição e aos pactos de ganância, essa imagem distorcida continuará sendo massivamente reproduzida pela mídia e por pseudolideranças.

O medo vende. O diabo vende. A promessa de poder imediato e amarração amorosa gera fortunas. Reconhecer Exu em sua dignidade real — como um ancestral, um guardião, um ordenador e uma consciência vital pertencente à tradição — modifica por completo essa engrenagem mercantil. Para muitos mercadores da fé, aceitar a verdade significa quebrar um mercado extremamente lucrativo. Por essa razão puramente econômica, esconde-se o ancestral e promove-se o demônio.

Estamos preparados para a verdade?

Essa distorção sistêmica nos obriga a direcionar a pergunta mais importante não apenas para os líderes que estão à frente dos cultos, mas para o nosso próprio peito: nós estamos verdadeiramente preparados para ouvir a verdade? Quando um sacerdote legítimo aponta nossos erros de conduta e exige retidão, nós permanecemos no terreiro para aprender e mudar ou corremos para buscar outro espaço que valide nossos caprichos? Buscamos orientação real ou apenas aprovação para os nossos equívocos?

A verdade raramente consola de imediato; na maioria das vezes, ela confronta, desmonta ilusões reconfortantes e exige o parto doloroso da mudança. A mentira faz o inverso: conforta temporariamente enquanto algema a alma na estagnação. Não podemos esquecer que os grandes homens que anunciaram revoluções morais profundas na história da humanidade enfrentaram a oposição mais feroz justamente das estruturas religiosas estabelecidas em suas épocas.

Nos relatos evangélicos, por exemplo, Jesus não foi caçado ou condenado pelos marginalizados, pelos pobres ou pelos pecadores da Judeia; ele foi entregue às autoridades do templo, que enxergavam em sua mensagem uma ameaça direta à ordem econômica e política que os sustentavam. Toda tradição corre o risco latente de trocar a verdade pelo conforto. O compromisso do verdadeiro sacerdote nunca será com o aplauso, com o mercado ou com a conveniência; seu compromisso irrevogável é com a verdade que liberta.

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Nos aprofundamos mais sobre esse tema no vídeo abaixo:

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